Bola de 3 no CHUÁ

Bola de 3 no CHUÁ

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Por: Prof. Hélio Barbosa

Professor de basquete e o representante responsável da NBA Basketball School para Barra do Garças e a Região Centro-Norte Brasileiro.

 

CRÔNICA:

A incrível façanha
de um grupo desacreditado

Há um mês, eu fui designado para desenvolver o trabalho de preparar um pequeno grupo de alunos, que jamais havia tocado numa bola de basquete, em uma das escolas de Barra do Garças, localizada num dos bairros mais populoso da cidade. Me surpreendi com a realidade na qual o desporto daquela unidade de ensino se encontrava e o tamanho do desafio que eu teria pela frente.

A minha primeira impressão ao deparar com os candidatos a atletas, na faixa entre 15 e 17 anos foi de surpresa. Depois, fiquei sabendo, que eles só estavam ali, porque não haviam sido aceitos no time de futsal.

Conclusão, as chances de montar uma equipe competitiva inexistia. Principalmente num prazo tão curto, para as pretensões da escola de participar de um campeonato, do qual pretendia estar presente participando no mês seguinte.  

Quando eu me aproximei, eles me olharam de maneira muito tímida quase assustados. Havia um pequenino com claros sintomas de desnutrição, outro também pequeno calçado de chuteira, um garoto novo de óculos e físico forte, dois gêmeos idênticos com perfis atléticos, outro garoto um pouco mais velho muito alto e forte, um tímido gordinho que não sabia correr e, para completar, uma garota agressiva se apresentou entre eles.

A partir dessa breve radiografia, deu pra perceber o tamanho da enrascada que eu havia me metido e teria de alguma forma encontrar uma solução rápida para a escola, no mínimo, não ficar de fora da fase municipal do Campeonato Estudantil de Mato Grosso.

Primeiro, porque as condições físicas dos alunos que estariam sob o meu comando deixavam a desejar e as possibilidades de aproveitamento chegavam a ser estarrecedoras, praticamente zero.

No entanto, encaramos o desafio e a mágica do esporte se fez presente. Em todo o período de treinamento os alunos com dedicação total à proposta, não faltaram sequer um dia.

O pequeno desnutrido acabou virando o capitão da equipe, os gêmeos e o garoto de óculos a alma e o espírito da equipe, enquanto o garoto rápido de chuteiras e o grandão se tornaram as principais armas da equipe. O gordinho tímido teve lá sua participação e a garota agressiva, bem, ela não pode participar do campeonato, porque era apenas para jogadores do sexo masculino. Mas posso garantir que ela conseguiu apimentar os treinos e me fez separar algumas brigas, porém, nada demais.

O campeonato terminou na última quarta-feira, e as pontuações alcançadas pelo colégio foram as seguintes: Colégio Estadual Irmã Diva Pimentel 05 x 15 Instituto Federal do Mato Grosso; Colégio Estadual Irmã Diva Pimentel 09 x 28 Instituto Madre Marta; Colégio Estadual Irmã Diva Pimentel 06 x 84 Escola Interativa COOPEMA – a grande campeã do evento – e por fim, Colégio Estadual Irmã Diva Pimentel 13 x 09 Colégio Estadual Eurico Gaspar Dutra.

Imagina você ver brotar o amor pelo esporte, num time, que antes, jamais havia tocado numa bola de basquete. -  Prof. Hélio Barbosa.

Para um técnico que já trabalhou com atletas de alto rendimento, tanto no basquete adulto quanto nas equipes de base. Acostumado a competir sempre em busca de resultados positivos obter somente uma vitória numa competição, foi uma experiência incrível!

Imagina você ver brotar o amor pelo esporte, num time, que antes, jamais havia tocado numa bola de basquete. Um time desacreditado, cujo esforço, persistência, dedicação e total empenho em prol de uma causa, considerada desde o início, no mínimo, sem chance de êxito. Depois sair triunfante, de cabeça erguida e com o compromisso do dever cumprido.

Esta é a realidade nua e crua, da participação da equipe de basquete do Colégio Estadual Irmã Diva Pimentel no Campeonato Estudantil de Mato Grosso em 2019.

Conquistamos apenas uma vitória em quadra, é fato. Mas compreendi na prática, o sentido da celebre frase do inesquecível John Wood: “A medida do sucesso não está no placar final e, sim, no empenho máximo para alcançar o seu objetivo, dentro das suas possibilidades.”.

Esses garotos, a princípio desacreditados, conseguiram levar para casa, o troféu do respeito. E eu, eternizado na memória, a incrível façanha dos garotos aprendizes, que tão bem representaram sua escola numa competição de craques experientes.

E assim, logo amanhecerá um novo dia, a luta continua e até quando nos depararemos com essa triste e doce realidade do desporto escolar brasileiro. 

  • Crônica escrita pelo professor Hélio Barbosa, homenageando a determinação e a força de vontade de um grupo de garotos aprendizes que ficará eternizado na sua mente como treinador, pelo seu grandioso exemplo de perseverança.          

 

      

Fotos: Arquivo pessoal do professor Hélio Barbosa.